No Oceano Índico, margeando Sri Lanka, a Índia, Bangladesh, Mianmar, a Tailândia, a Malásia, Singapura e a Indonésia, fica o Golfo de Bengala, que é o maior golfo do mundo. Relacionado a animais, é muito mais comum ler-se ou ouvir-se sobre o tigre-de-bengala, também chamado tigre-indiano, que é umas 6 subespécies de tigres restantes no planeta. Mas existe um outro felino, este um animal doméstico, conhecido pelo nome de gato-de-bengala, ou pelo seu nome em inglês, bengal cat, nome que foi apenas transcrito sem tradução para uso no português para gato bengal, com a pronúncia com o acento na vogal ‘e’, que é fechada (algo como ‘bêngal’).

 

Para quem quiser saber como escrever e flexionar o nome

Se for pensar em gramática, a palavra inglesa ‘bengal’ é o adjetivo para quem nasce na região ou golfo de Bengala (por terra, é região dividida entre a Índia e Bangladesh). O uso mais comum em português para designar quem nasce na região é bengali (com acentuação mais forte no ‘i’, ou seja, pronúncia oxítona), mas também é comum bengalês. Em Portugal, também é possível o termo ‘bengala’ para os nascidos na região. Com os nomes aportuguesados, o plural é mais simples: bengalis, bengaleses ou bengalas. Já com o termo em inglês, mantém-se o plural na maneira inglesa: ‘gatos bengals’ (semelhantemente à difícil palavra ‘gol’).  Em Portugal, onde normalmente se preferem termos em português, a preferência é por gato bengala, cujo plural é gatos bengalas (nada relacionado ao objeto ‘bengala’, mas ao aportuguesamento do nome da região entre a Índia e Bangladesh).

 

O ramo selvagem que originou o bengal e provavelmente também o nome da raça

 O gato-de-bengala é uma raça de gato domesticado criada a partir de hibridação de do gato-leopardo asiático (Prionailurus bengalensis) e de raças de gatos domésticos, principalmente a do gato egípcio conhecido como mau.

 

Figura 1: Gato leopardo asiático (Prionailurus bengalensis)

 

O gato-leopardo é um pequeno gato selvagem nativo do sul e sudeste e leste da Ásia. Desde 2002, ele foi listado como animal que provoca uma menor preocupação na Lista Vermelha da IUCN (International Union for Conservation of Nature – União Internacional para a Conservação da Natureza, que é uma organização que usa os critérios mais relevantes para analisar o risco de extinção de milhares de espécies e subespécies), pois é amplamente distribuído, embora ameaçado pela perda de habitat e caça em alguns lugares.

Nos diversos sites sobre a raça, há várias explicações sobre seu desenvolvimento, mas na principal publicação sobre a raça dos EUA, assegura-se que o desenvolvimento é obra de mais de uma pessoa, não sendo possível determinar ao certo a origem precisa. O que se sabe é que ela surgiu por acaso e que a data mais correta é o ano de 1973.

Naquele ano, o Dr. Willard Centerwall, pediatra da Loma Linda University, EUA, cujo ‘hobby’ eram os felinos, queria tentar tornar gatos domésticos imunes à leucemia felina, e, para isso, cruzou um macho de gato doméstico com uma fêmea de gato-leopardo asiático, animal que é imune à doença. Como a leucemia felina é semelhante à humana, os estudos eventualmente produziriam efeitos para a saúde do ser humano. Ele falhou em suas tentativas, mas, casualmente, iniciou uma nova raça, a dos “bengals”, nome que foi dado, após sequências de cruzamentos e estabelecida a raça, por Bill Engler, grande divulgador da raça, em 1974.

Os bengals, infelizmente, como os gatos domésticos, não são imunes à leucemia felina, como são os seus parentes asiáticos. Os cruzamentos iniciais foram feitos por Bill Engler, que era um grande entusiasta de felinos exóticos e participava ativamente do ILOC (Long Island Ocelot Clube – Clube de Ocelotes de Long Island). Engler cruzou gatos-leopardos com espécimes do egípcio mau, do gato birmanês, do gato abissínio e do ocicat, que são gatos dóceis, exatamente para tornar os gatos bengals mais amigáveis, embora mantendo a aparência de felinos selvagens exóticos, como leopardos, jaguatiricas, gatos-maracajás, etc., principalmente na pelagem, que pode apresentar manchas, rosáceas, marquinhas de ponta de flecha, ou coloração marmórea, sem o caráter selvagem, nervoso, dos primeiros indivíduos frutos dos cruzamentos iniciais. Há até quem afirme que o nome bengal, dado à raça por Engler, seja inspirado no nome pelo qual era conhecido seu principal divulgador – de fato, na pronúncia: B. Engler (‘soando bi-ênguelr’, rapidamente, com algumas assimilações de sons, vira ‘bêngal’ – algo meio forçado, mas faz parte das explicações não confirmadas da origem do nome da raça).

A mistura do gato-leopardo asiático com o mau egípcio (e outras raças, como veremos mais abaixo) dá ao gato-de-bengala o seu brilho dourado. O nome “bengal” é muito mais provável que tenha vindo do nome científico dado à raça da mãe utilizada na primeira cruza, segundo a classificação binária que é atribuída a cada animal ou vegetal pelos órgãos internacionais: Prionailurus  

O ramo doméstico que originou o bengal

O gato egípcio mau é uma raça de gato de pelos curtos e de porte pequeno a médio. Os maus são uma das poucas raças de gato domesticado que têm manchas naturais, e elas ocorrem apenas nas pontas dos pelos de sua pelagem. É uma raça considerada rara.

Figura 2: O mau, raça egípcia de gato, hoje rara

 

O gato birmanês é muito longevo, chegando a viver em média 18 anos. Caracteriza-se por ser muito ágil e forte, tem olhos grandes, de cor dourada brilhante.  É ativo, sociável e tranquilo.

 

Figura 3: Fêmea de um gato birmanês.

 

 O gato abissínio, cujo nome é dado pela sua origem, a região da Abissínia, hoje dividida entre os países da Etiópia e da Eritreia, na África, é bem resistente a altas temperaturas, como os gatos originários do continente africano. Os traços típicos de caráter são a teimosia e o pedido contínuo de atenção; tem muita energia e adora brincadeiras; é sociável, ágil, curioso, adora altura e furtar objetos que lhe interessem, mas, devido à sua graça e elegância naturais, dificilmente causa estragos.

Figura 4: Um exemplar de gato abissínio adulto, de cor de lebre.

 

ocicat é uma raça felina que se parece com o gato selvagem na aparência, mas foi obtida exclusivamente com o acasalamento de gatos domésticos. É um gato inteligente, brincalhão e facilmente treinável, muito apegado ao ser humano, mas desenvolve um carinho especial com apenas um indivíduo e odeia a solidão.

 

Figura 5: Exemplar de gato ocicat de pelagem chocolate.

As três primeiras gerações que partiram do gato-leopardo asiático como um dos pais e a de domésticos como outro dos pais são as chamadas espécimes fundamentais, que foram usadas nesses cruzamentos entre gatos-leopardos com gatos mansos e com manchas, para assegurar a pelagem semelhante à de felinos selvagens e a docilidade do caráter. Da quarta geração em diante, já se obteve um gato da raça hoje conhecida como gato-de-bengala, que é totalmente fértil e dócil. Portanto, na atualidade, não é necessário tornar a cruzar um bengal com qualquer outro indivíduo das espécimes fundamentais, porque a raça bengal já se estabeleceu geneticamente, e a criação seletiva dos melhores espécimes de bengals já é suficiente para perpetuar e melhorar a pelagem dessa raça doméstica. Em 1986, ela foi reconhecida pela TICA – The International Cat Association (A Associação International de Gatos), associação que coleta um grande conjunto de dados genéticos de gatos e tem sede nos EUA.

Figura 6: Um típico exemplar de gato bengal.

 

Características físicas da raça

bengal é um gato grande e musculoso; os machos podem pesar 9 kg, enquanto as fêmeas geralmente não excedem 6. A cabeça deve ser proporcional, com um perfil bastante triangular e semelhante ao de seus progenitores selvagens. Ele tem expectativa de vida entre 10 a 16 anos.

O nariz não é particularmente longo; os olhos são grandes e podem ser amarelos, verdes ou azuis se for uma “snow bengal”, uma variedade que se diferencia pela coloração semelhante à dos siameses, mas mais clara.

As orelhas não devem ser muito grandes. O pelo é curto e fino, com textura espessa e sedosa ao toque.

As pernas são robustas, a cauda é de comprimento médio e com ponta arredondada.

As cores permitidas são: malhado e a variedade ‘snow bengal’ (também chamada de leopardo da neve), ambos com manchas bem marcadas, o malhado indo de um marrom avermelhado a uma cor preta intensa. Um defeito que em uma exposição felina pode levar à desqualificação é a presença de manchas brancas irregulares. A barriga é sempre manchada.

 

Comportamento

Um gato-de-bengala foi considerado um verdadeiro gato doméstico somente após a terceira geração, conforme vimos pela história da raça; antes dela, ele apresentou comportamentos ainda típicos do gato selvagem;  mas, ainda hoje, na verdade, o bengal nunca abandonou completamente o caráter dos progenitores.

Ele adora pular, correr e ainda tem um instinto predatório em relação a pequenos animais. Para muitos, tem o espírito de um cão, porque adora correr atrás de objetos lançados e trazê-los ao dono. Relaciona-se bem com crianças, podendo demonstrar medo ou indiferença com quem não conhece.

Ele precisa de espaço para correr, mesmo dentro das paredes de casa ou em um jardim fechado. É um gato carinhoso, mas com um caráter decididamente agitado – alguns donos amenizam o adjetivo para ‘animado’, mas acho que é fácil entender que o menino é um pouco arteiro, mesmo (para conferir: nas descrições da raça, feitas por especialistas, no item ‘energia’, de 1 a 5, do menor nível ao maior nível, o do bengal consta como 5).

O gato-de-bengala gosta de jogos de busca além de ser um gato que adora aprender novos truques. Para ele, subir em árvores é sinônimo de desafio, mas, para manter os pássaros locais a salvo desse minicaçador, é bom deixá-lo em um local onde ele possa pular e escalar com segurança para outros pequenos animais. Como também gosta de brincar com água, fontes e bebedouros devem existir por perto, para ele se divertir – sempre, é claro, preservando o ambiente da sujeira que se espalha. Claro, não é boa ideia ter um aquário e um bengal no mesmo ambiente: dá para imaginar a consequência de um salto do bengal (ele o fará com absoluta convicção) para pegar os peixinhos.

Quem gosta de gato animado e carinhoso, tenha um bengal; mas quem não tem fôlego para uma agitação que inclua um bichano que mexa em seus CDs, que acenda e apague as luzes, que derrube copos e trepe em tudo, adapte seu ambiente (há móveis especiais que podem ser pendurados para esse fim). Você evitará o tédio (fácil) do bengal, ou, então, desista, interesse-se por outra raça!

 

Cuidados específicos

Durante a troca de pelagem, é necessário escová-lo com mais frequência, mas ele não requer cuidados além dos de um gato doméstico normal.

Como sua pelagem é grossa e curta, exige poucos cuidados específicos, sendo suficientes apenas escovação semanal para remover pelos mortos e devolver-lhe o brilho, bem como banhos raros. Como para qualquer gato, escovar os dentes duas vezes na semana, é recomendável, assim como cortar as unhas a cada duas semanas.

Limpar os cantos dos olhos com gaze ou pano macio é outro cuidado que se deve ter a cada duas semanas. Já a limpeza das orelhas deve ser semanal, mas apenas com uma bola de algodão úmida, pois cotonetes podem machucar a orelha do bengal. 

Em comparação a outros gatos, o bengal tem maior propensão a sofrer de problemas de saúde, sendo os mais comuns: a displasia de quadril, a atrofia progressiva da retina, a luxação da patela e, nos filhotes até um ano, a neuropatia distal.


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